sábado, 3 de abril de 2010

NARDONI E A MÍDIA by Marco Angeli

A capa da Veja de 31 de março diz que Isabella pode
descansar em paz, finalmente, se referindo
à condenação de Alexandre Nardoni e Ana Jatobá.
Essa provávelmente é a sensação de todos nós depois
de dois anos de perícias e investigações, idas e vindas, num
processo explorado exaustivamente pela mídia.
No entanto,o texto de capa da Veja não é ainda e nem
será suficiente para tirar de todos nós a inquietação e
as perguntas que o caso gerou.
Será que Isabella realmente descansa em paz?
E as outras Isabellas, crianças como ela, que são
contínuamente submetidas à violência e estupros sistemáticos,
muitas vezes dentro da própria família? A mídia, 
atrás de pontos de audiência, enfatiza e veicula casos
como o dela de forma sensacionalista, e lhe dá um espaço
gigantesco, mas a exposição dos fatos é quase sempre
rasa, pouco abrangente, se limitando às lágrimas e
ao sofrimento, sem buscar as implicações e causas reais
que um caso como esse, hediondo, tem socialmente.

 Alexandre Nardoni e Ana Jatobá, presos

Na época do assassinato a repercussão foi mundial,
e é notável a crônica, na Europa, do Le Monde, que cita o abalo
gerado pelo infanticído em todo o Brasil, e a participação
da mídia, que acabou criando cenas surrealistas no
que seria uma investigação policial importante, claro,
mas corriqueira. Durante a reconstituição do crime, por exemplo,
transmitida pela TV e assistidas por milhões de brasileiros
-durou sete horas- a policia teve que isolar
completamente o local com barreiras, proibiu o uso do espaço
aéreo num raio de 3 km para impedir que os helicópteros
da imprensa sobrevoassem o edifício, e afastou o povo que
se aglomerava mais e mais, entre eles membros de uma seita
religiosa que distribuía panfletos com o rosto da menina
e exigia que seus assassinos fossem entregues nas
'mãos de Deus'.  Em outras palavras, vingança.
Ainda no comentário do Le Monde o assassinato de
Isabella causa uma comoção gigantesca num país que tem
um dos mais altos índices de assassinatos de todo o 
mundo, cerca de 50.000 por ano. E tal comoção é causada
principalmente pelo fato de que o crime ocorreu numa família
de classe média, com a qual grande parte das pessoas se
identifica, além óbviamente de se caracterizar como o pior
dos crimes, por ter como assassino o próprio pai
de uma pequena criança, totalmente inocente.

 Pai e madrasta: crime hediondo na mídia

Durante seis semanas os Nardoni conseguiram se esquivar,
gerando uma ansiedade enorme que foi explorada pela imprensa,
e quando foram finalmente presos, em 8 de maio,
deram uma longa entrevista no Fantástico, da Globo.
A Globo, aliás, deu tratamento prioritário ao assunto, 
mobilizando contínuamente quinze equipes de repórteres e
cinegrafistas, tres veículos ao vivo e um helicóptero.
Tal mobilização gerou até comentários do presidente
Lula, que se viu obrigado a dizer qualquer coisa, como 
sempre, sobre o assunto. E disse. Numa espécie de
repeteco decorado de suas falas em relação às constantes
acusações aos malfeitores de seu governo,
recomendou prudência, e a não condenação prematura
dos suspeitos. O de sempre.
Poderia ter sido mais profundo. A imprensa, em especial
a rede Globo, que faturou e muito em audiência com
o caso, poderia ter sido um pouco mais abrangente e
considerado que neste país, segundo o Ministério da Saúde,
a cada dez horas uma criança de menos de 14 anos 
é assassinada.
E que muitos desses crimes acontecem dentro do
próprio ambito familiar.
Ou que, segundo as estimativas do Departamento
de Estudos da Criança da Universidade de São Paulo
menos de 10% dos casos de violência física e psicológica
contra adultos e crianças acabam chegando ao 
conhecimento das autoridades.
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Assustador também é se constatar que, de forma
geral, os Nardoni são considerados simplesmente um casal
de classe média, sem qualquer distúrbio
psicológico ou emocional. Nem os próprios advogados
de defesa aventaram tal hipótese. Claro que isso seria um tiro
no próprio pé, uma admissão de culpa.

Os Nardoni: só um casal normal, da classe média?

Mas e a imprensa?
Será que realmente um pai normal -Alexandre Nardoni,
nesse caso- não estando submetido naquele momento á
nenhuma situação de stress extremo, voltando de uma
festinha infantil, e com algum tempo para pensar, refletir e
eventualmente desistir -assassinaria sua própria filha?
Ou seria um psicótico, sofrendo de um surto assassino
no mesmo momento em que sua companheira, Ana Jatobá,
coincidentemente passava pelo mesmo processo?
Essas questões não foram consideradas, práticamente,
de forma profunda, pela imprensa de forma geral,
e pela Globo principalmente.
Um casal com maldade e perversidade conscientes,
aparentemente, são melhores em termos de audiência do que
um casal psicótico, sem domínio sobre seus atos.
Isso é assustador pois, sob esse aspecto, qualquer
cidadão normal pode, de repente, virar um assassino cruel ou,
 pior, um assassino de seus próprios filhos.
Mas o que são os Nardoni afinal?
A justiça os condenou como culpados pelo assassinato de Isabella,
num processo de investigação e julgamento exemplares.
Mas o que os levou à isso, e como foi esse caminho
que os levou, finalmente, à esse ato insano?

Casos similares, envolvendo sempre famílias de classe
média, tem tido a atenção da mídia e se alastrado pelo
imaginário popular, criando, como no caso da menina Isabella,
uma catarse coletiva, em busca de justiça, vingança,
como o que se viu durante o julgamento de Alexandre Nardoni
e Ana Jatobá, diante do Forum.
Foi assim com Suzane Von Richthofen, que planejou o
assassinato dos próprios pais, Manfred e Marísia, em 2002.

Suzane, num rolo de heranças, ambição, drogas
e fanatismo pelo namorado.

Os assassinatos foram premeditados e cometidos pelos
irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, com barras de ferro.
Enquanto acontecia, Suzane estava em outro comodo da
casa, e esperava. Seu comportamento sempre foi frio,
calmo e calculado. Susane foi presa, condenada, e seu
último pedido de habeas corpus negado em fevereiro deste ano.
A imprensa explorou o caso espetacularmente,
e por diversas vezes chegou até a infuenciar decisões
judiciais, expondo entrevistas e declarações dos acusados.
 O caso de Suzane tinha tudo para gerar audiência, bem ao
agrado dos que curtem o aspecto noveleiro e fantasioso
de histórias reais como essa.
Havia o o lado passional, representado pelo namoro proibido
pelos pais com Daniel Cravinhos, de classe econômica
mais baixa. Haviam as drogas. E havia a ganância pela
herança, no caso da morte dos pais.
O que daria uma bela novela mexicana acabou virando 
crime de verdade e a imprensa aproveitou enquanto pode,
sem se aprofundar nunca no aspecto social e psicológico do crime.
Outro caso, que justamente pela ausência dos elementos
novelescos não gerou tanta cobertura, mas se encaixa nos mesmos
moldes, foi o caso de Gil Rugai, que assassinou seu pai e sua
madrasta a tiros em Perdizes, na cidade de São Paulo. 
O caso Rugai foi logo colocado de lado pela mídia, pela ausência  
de elementos que interessassem ao público,
por aparentemente envolver apenas o próprio suspeito,
e sem grandes elocubrações fantasiosas.
Rugai nunca foi julgado, e atualmente se encontra respondendo
ao processo em liberdade concedida por
um habeas corpus de 25 de setembro de 2009.


Gil Rugai, suspeito de assassinar o pai e a madrasta
sózinho, sem enredo de novela. Só por grana.

Alguns psicólogos mais conscientes, como Ana Bahia Bock,
psicóloga e professora da PUC-SP, tem algumas conclusões
interessantes sobre o papel da mídia nestes casos envolvendo
a classe média, que são supervalorizados e esquecidos
assim que são 'resolvidos'. Em 2008, ela faz inclusive uma
analogia de tais casos com os 'reality shows', uma das
péssimas manias da Rede Globo, que explora justamente
o lado popularesco e raso do ser humano.
Ana coloca ainda que os casos de violência contra crianças
no Brasil é muito maior do que se imagina, e na maior
parte das vezes, por inúmeras razões, sequer é relatado.

Um problema crônico e mal resolvido.
O caso Nardoni, aparentemente resolvido com a
condenação dos acusados, ainda deixa muitas lacunas
como essa em aberto.
Uma delas, bem próxima do caso, é a marca irreparável
criada na vida dos dois irmãos de Isabella, crianças
de 3 e 5 anos que provávelmente presenciaram em parte
ou integralmente o que aconteceu realmente na noite em
que Isabella foi morta.
O que será delas, no futuro?
Ou, se considerarmos os Nardoni como um simples e
normal casal de classe média, onde e como o sistema
social falhou, exatamente, para provocar
esse ato insano e hediondo? E nesse caso, por
pura dedução, estaríamos todos sujeitos à ele?
E, talvez, a questão mais importante levantada neste
momento seja o do que é feito efetivamente por autoridades
e governo em relação às milhares de outras crianças
que sofrem de violência da mesma forma, no país.
Por serem de outra classe social, por ignorância,
ou simplesmente por descaso, não atraem a atenção
da mídia, e consequentemente estão completamente
desamparadas.

A violência anônima contra crianças: quem cuida deles?

Quando estas e muitas outras perguntas puderem ser
respondidas, Isabella provávelmente poderá descansar
em paz. E saberá que o que aconteceu com ela não
foi total e tristemente em vão, mas serviu e servirá para
esclarecer, para que se estude e reflita, e desta forma
poderá evitar que aconteça o mesmo
com outras crianças como ela.
Enquanto isso, ficamos com o circo vazio da mídia,
que explora mas não explica coisa alguma.
E esquece rápido. Tem que faturar.

Em exato contraponto à imprensa sensacionalista e
oportunista, ainda nos é permitido ter alguma fé, quando
se observa atitudes dignas e conscientes como a do
promotor Francisco Cembranelli. Na época do inquérito,
se cogitou ouvir Pietro, um dos irmãos de Isabella, em
condições especiais, já que ele teria presenciado o crime.
O promotor Franscisco Cembranelli, lição de dignidade. 

Cembranelli, apesar de empenhado na condenação dos
acusados, foi contra e recusou.
'Imagina como seria a vida de um jovem que, com seu
depoimento, condenou os próprios pais. Estaríamos
dando à esse jovem uma outra sentença.'
Esse ato de dignidade e consciência, mesmo contra seus
interesses, talvez devesse ser observado melhor
pelos profissionais de mídia que, em teoria, cumprem a
função de informar com a obrigação de melhorar
a sociedade, e não de transformá-la num circo
em benefício próprio.

Marco Angeli, abril de 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

GELADEIRA PIN UP by Marco Angeli

Interessante e bacana este projeto para
as geladeiras pin up, com a loira e a morena que criei.
Em breve estarão sendo vistas por aí,
estão em produção.

A geladeira com a morena...chic e criativa

A loira, no freezer...

Algumas estarão em exposição daqui a alguns dias,
aviso à todos assim que possível.

Marco Angeli, março de 2010

GAROTA PIN UP, A ORIENTAL by Marco Angeli


A expressão 'pin up' foi usada pela primeira vez
-na língua inglesa- em 1941. Ele se referia à toda e qualquer imagem
recortada de jornais, revistas, cartões postais, litografias,
calendários, e pendurados em algum lugar...daí o termo pin up.
Mas esse hábito, quase que típicamente masculino, de
pendurar imagens de mulheres bacanas, já vem de muito
antes, desde meados de 1890.

Charles Dana Gibson e suas garotas, litografia de 1890

Quando se popularizaram, as imagens começaram a
aparecer frequentemente em calendários, que foi a mídia
mais forte da época para a divulgação e crescimento
das pin ups, que acabaram virando posters produzidos em massa.
O cinema americano fornecia material farto e atraente
e algumas atrizes consagradas, como Betty Grable,
um sex symbol da época, se transformou numa das primeiras
pin ups conhecidas. Durante a Segunda Guerra Mundial um
de seus posters era presença obrigatória nos armários dos
soldados norte americanos e virou um ícone.

Betty Grable, sonho dos soldados americanos
durante a Segunda Guerra.


Essas mulheres de sonho começaram a ser idealizadas
e trabalhos artísticos começaram a ser produzidos,
representado o ideal da mulher bela e atraente.
Charles Dana Gibson foi o precursor desta arte, e logo
grandes artistas, como Gil Elvgren, Alberto Vargas,
George Petty e Art Frahm se especializaram em
desenhar as pin ups, criando um trabalho que seria conhecido
no mundo todo.


O estilo inconfundível de George Petty, num calendário
dos anos 50.


O termo pin up finalmente se transformou no sinonimo
de belas mulheres que carregam consigo a
beleza e ingenuidade de uma época em que estiveram
no auge, uma época em que grandes artistas criavam um
ideal de certa forma erotizado mas de extremo bom gosto
do que era a mulher atraente, sensual. E essas mulheres
viraram ícones de comportamento, de vestuário,
de imagem...um ícone fashion.
O cinema, como não poderia deixar de ser, por tradição,
sempre foi e continua sendo o grande descobridor e divulgador
desses ícones de beleza e sensualidade ideais, inclusive
masculinos, que acabaram virando pin ups também,
à exemplo de Brad Pitty ou Paul Newman.
Das telas para as paredes do mundo todo, algumas
das musas mais celebradas e atraentes
do cenário das pin ups:

Theda Bara, musa do cinema, 1910-1920


Pola Negri, pin up em 1920

 Mae Murray, musa do cinema nos anos 30


Alla Nazimova, em 1921


Marlene Dietrich, a musa dos anos 40


Carmem Miranda, atriz e cantora, dos movies para 
os pin ups, em 1940

Rita Hayworth, em 1941

Sophia Loren, rainha do cinema italiano nos 
anos 50.


Pier Angeli, linda no cinema, anos 50


Joan Crawford, nos anos 50, arrojada


Kim Novak, sonho dos marmanjos em 1950


Goldie Hawn, sexy nos anos 70, lindinha


Jacqueline Bisset, a beleza de sardas dos anos 70


Cindi Lauper, reinações nos anos 80, very sexy


Phoebe Cates, musa dos anos 80


Daryl Hanna, dos anos 80


Christina Aguillera, pin up dos anos 2000

Bernie Dexter, desenhada por David Vicente,
pin up dos anos 2000


Scarlett Johansson, musa dos anos 2000,
nos anúncios de Dolce & Gabbana

Zooey Deschanel, very sexy, anos 2000

Pitty, cantora e anarquista, hoje


Hoje desenho, em parceria com o pessoal da
Garota Pin Up, uma série de pin ups que se iniciou com
a loira, a morena, a negra e a ruiva.
Preparamos para lançar em breve o calendário,
com mais oito artes das pin ups, inclusive com
a japonesa, que é o título deste post.
Quando editava este material, recebi a informação de que ainda
não podemos divulgar as imagens, então aí está
um pedacinho apenas...hehehehhe...

A pin up japonesa, segredinho

Bom, espero que me desculpem. Estarei publicando
a japonesa e as seguintes assim que possível.

Marco Angeli, março de 2010