sexta-feira, 5 de junho de 2009

NETO SANSONE, DIVAS by Lilian Heitor


DIVAS
A fonte feminina nas duas artes

No contexto feminino, mulheres são estilizadas pelos pincéis
do artista plástico Neto Sansone,
numa expectativa de congelar o tempo, para fundamentar a
escolha do conjunto da obra.
Trata-se de uma exposição idealizada pelo encontro
entre célebres retratos de mulheres na pintura,
com as brilhantes cenas de atrizes no cinema.
A proposta é a justaposição díptica entre duas imagens escolhidas
pelo gosto pessoal do artista e a curadoria, onde a
referência é a semelhança entre as imagens,
que possibilitam um diálogo imediato, numa provocativa e virtuosa
relação entre as duas artes:
pintura e cinema,
pelo qual o observador terá a oportunidade de vivenciar
através da memória.

No conjunto o artista promove uma série de obras inéditas,
espirituosas e por vezes sensuais, com pinceladas que
contemplam as formas orgânicas e justificam a razão
e a emoção no jogo da feminilidade.
Neto Sansone possui em seus trabalhos um repertório de
imagens figurativas, de técnicas e representação do desenho
'quase figurativas', que atingem o ápice da composição com
o uso original da proposta do 'negativo', adquirido pelo contraste
do uso do preto e do branco.


As obras procuram entoar distorções pelo movimento e criatividade
dos pincéis do artista, onde as figuras
são trabalhadas através de um eixo central dominante.
A característica jovial e espirituosa da mostra é uma proposta
genuína, de uma situação rítmica e intensificada pelas escolhas
das mulheres retratadas.
Na pintura, aquelas que fizeram história através da arte, e no
cinema as tão conhecidas cenas do mundo cinematográfico.
Divas é um gestual artístico, espontâneo e persuasivo do
artista plástico Neto Sansone, uma homenagem para ilustres
mulheres e suas conquistas, coligadas ao interesse singular
pelo cinema e pintura.

Lilian Heitor
Curadora da Mostra


Eu e a Lilian nos conhecemos há alguns anos, e todos os trabalhos

dela como curadora que vi sempre foram maravilhosos, principalmente

os do extinto Espaço Blue Life, dos quais participei.

A seriedade e a paixão pela arte de Lilian estão sempre em todas as

mostras que organiza.

E estarão com certeza nesta.

Para quem gosta vale a pena ir ver essa mostra.


Marco Angeli

quarta-feira, 3 de junho de 2009

PENSKE DO BRASIL by Marco Angeli

A Megaron é uma empresa de arquitetura corporativa
e fizemos juntos, há algum tempo, um dos trabalhos mais
bem estruturados e realizados de que me lembro, com
a empresa Panalpina.
Somos velhos conhecidos.
O trabalho da Panalpina foi temático, o que envolveu uma
série de estudos para as imagens que pintei. Em alguns casos cheguei a
desenhar 5 ou 6 lay outs antes da aprovação do que seria pintado.
Foram diversas telas e cada uma delas foi planejada para o ambiente
onde estaria, inclusive com a construção de nichos no formato exato
de cada uma, emoldurando as pinturas. Graças ao profissionalismo
com que foi conduzido não houveram práticamente acidentes
de percurso, normais até num caso desses.
Eu e o Anderson da Megaron nos tornamos amigos
por conta desse trabalho. Ele é um profissional extremamente
meticuloso e seus trabalhos sempre são
cuidadosamente planejados, e de bom gosto, claro.
Neste caso do escritório central da Penske do Brasil,
que acabamos de realizar, não foi diferente.
Como se tratava de um painel circular para a recepção
da empresa no Brasil, em São Paulo, havia uma grande dificuldade
em transportar esse material para meu studio, assim
decidimos que eu pintaria no próprio local.
Fiz alguns estudos e contei com a ajuda da Cátia Angeli
como assistente na pintura.


O projeto inicial, da Megaron, aprovado


Algumas opções que desenhei para o painel


O início da pintura, recepção da Penske, em São Paulo


Catia Angeli, fazendo arte com o primo


No meio de uma neblina de verniz PU, eu pinto,
faceiro como diz a Catia, e um dia ainda vou acabar
tendo problemas respiratórios por causa disso...hehehe


Trabalho finalizado, e a recepção prontinha, falta
só a tela de plasma ali na direita






Alguns detalhes do trabalho finalizado

Meus agradecimentos ao Anderson da Megaron, pela
amizade e o profissionalismo de sempre, ao pessoal na
obra que nos ajudou e especialmente à Catia, pela paciência
e bom humor de sempre. Valeu.

Marco Angeli, junho de 2009

segunda-feira, 1 de junho de 2009

VIDENTE DO AMOR by Marco Angeli


Outro dia, grudado no parabrisa de meu carro, em São Paulo,
estava um folhetinho que eu não via há muito tempo já,
mas muito familiar.

Dizem que a profissão mais antiga do mundo é aquela
exercida pelas moçoilas extrovertidas - incluindo as surfistinhas
da vida- mas algumas outras parecem ser tão antigas quanto
e terem existido sempre, desde o início da humanidade.
Peguei o folhetinho com cuidado, e sentado num dos Fran's Café
da vida observei que era o mesmo de sempre e sempre.
Nada mudava, nem o papel vagabundo, nem a tipologia,
e muito menos a linguagem. Era igual aos que circulavam
quando eu era criança.

Pensei em quanto o mundo havia mudado desde aquela época,
de uma forma assombrosa, numa velocidade estonteante.
Eu refletia, absorto naquele papelzinho, como era possível
que ele sobrevivesse incólume, indiferente até,
à essa avalanche de tecnologia que, todos os dias,
vão separando o homem do misticismo e da bruxaria.
E me veio a pergunta fatal, inevitável:
será que realmente a net, os computadores,
essa nossa vida virtual nos separou da espiritualidade,
da magia? A resposta estava ali em minhas mãos,
naquele papelzinho amarelo.

Cortei a cena para algumas semanas antes quando eu,
pintando, numa madruga dessas, liguei o rádio e por acaso
saiu dele a voz de um pastor, estrondosa, solene, esbravejando
a verdade sobre a vida e a morte, e a importância da
sua igreja, ou templo, nesse processo.
Ele entrevistava via telefone alguém humilde do outro lado
da linha, com uma eloquência e uma perspicácia terríveis.
A princípio achei engraçado e pensei que fossem mais um daqueles
programas de humor meio duvidoso, e comecei a prestar
atenção...e incrédulo percebi que não, aquilo não era humor...
estava acontecendo e não tinha nada de engraçado.
A música ao fundo, enquanto a pessoa do outro lado da linha
afirmava ter sido curada de um cancêr terminal graças aos
milagres da igreja do pastor que ouvia, era uma marcha militar
bem ao gosto e da época mesmo do fascismo.

Fui escutando, ligações que não terminavam jamais,
pessoas e pessoas dando graças e testemunho por milagres realizados,
doenças que sumiam, cegos que repentinamente enxergavam,
paraplégicos que começavam a andar, tumores que
desapareciam simplesmente, de um dia para o outro,
graças à uma oração...e à fé.
Aquilo poderia ser tudo, um embuste grosseiro, qualquer
coisa, mas como o papelzinho amarelo nas minhas mãos,
sobrevivia desde o início da história dos homens
e impulsionava milhões de pessoas no mundo todo
sem sequer se abalar, apesar do mundo se tornar
mais e mais racional à cada dia.

No livro de um psicólogo famoso, outro dia, li que a
tecnologia avança e evolui numa velocidade estonteante, mas
espirutalmente nossa evolução não acompanha nem de
longe essa velocidade. Espiritualmente...somos crianças ainda.
Talvez e provávelmente isso seja verdadeiro, e explique em
parte o papelzinho amarelo e os templos dos milagres.
Seja como for, o fato é que o folhetinho provávelmente
sobreviverá imune e imutável à minha geração, à proxima
e às próximas...
Mais do que a arte, de modo geral.
Mais do que minha pintura, certamente.
Terminei o café, peguei o folhetinho com todo cuidado e
resolvi guardar.
Ele tinha um valor próprio, implícito.
E nunca se sabe...

Marco Angeli, maio de 2009