Saguão do aeroporto, dia da tragédia
E poderá ser com um dos que dizem o
'ainda bem que não foi comigo'.
O que -simplificando- é simplesmente uma atitude burra.
Apostando e acertando na mosca nessa atitude e reação de todos
nós, as autoridades competentes para apurar as responsabilidades
sobre a tragédia que causou a morte de 200 pessoas
levaram dois longos anos,
enrolando o máximo que puderam para chegar á uma conclusão
previsível, em se tratando de fazer o possível e o impossível para
acobertar erros da empresa e autoridades envolvidas no caso, desde
a manutenção das aeronaves quanto
do próprio aeroporto e sua pista.
Apostando no esquecimento, a Aeronáutica divulga seu relatório
final sobreo caso, com a singela conclusão de que não
existem responsáveis.
E insinua que talvez...os responsáveis sejam os pilotos.
E que se alguém tem que apontar culpados, que seja a polícia,
jogando a tal batata quente em outras mãos.
A PF, por sua vez, corrobora e enfatiza o relatório da CENIPA e
atribui taxativamente aos pilotos,
óbviamente mortos e sem condições de
se defender, a responsabilidade pelo desastre, o que gera indignação
de pilotos e associações por todo o país.
Veja o relatório da Aeronáutica, divulgado
oficialmente há alguns dias
Isso tudo, é claro, para quem se deu ao trabalho de acompanhar, foi
publicado há dias pela imprensa,
em letras provávelmente pequenas demais.
Afinal, já nem é mais uma notícia, apenas um relatório previsível,
e a quem interessam os relatórios previsíveis? A ninguém, supõem
acertadamente os peritos da mídia. Infelizmente.
No entanto, com certeza duzentas famílias sofrem.
A reação das famílias das vítimas ao relatório,
através de seu representante.
Para essas famílias,
um relatório justo seria um paliativo para a perda
de pessoas que amavam, e a certeza de que sua morte, afinal,
não foi totalmente em vão. Mas não é assim.
Quem se lembra ou ouve sequer falar de indivíduos que tiveram
uma participação lamentável no episódio,
como Marco Aurélio Garcia com o gesto famoso e infame
diante de uma tragédia dessas proporções?
Ou do homem da Infraero, João Brás Pereira?
Provávelmente ninguém,
nem mesmo os que os contratam e acobertam.
E sou capaz de apostar que devem estar por aí, nos mesmos
cargos, serelepes como nunca. Dejá vu.
Números. Estatísticas. Pessoas viram números e estatísticas
apenas, dentro de uma planilha qualquer, e se concluí imbecilmente
que, pela média, nunca foi tão seguro voar.
Morre-se mais no trânsito, por fumar, ou outra coisa qualquer, e
estabelece-se que, afinal, 200 é um número pequeno demais.
E pronto. A mídia colabora, e o caso está prontinho para
ser arquivado, mais uma fatalidade apenas entre outras.
No entanto, para os que perderam alguém querido nessa tragédia,
200 é um número enorme.
Alguns dos passageiros do vôo 3054. Fatalidade?
E tem uma importância crucial, principalmente na apuração
real dos fatos. Se foi ou não uma fatalidade.
E se poderia ou não ter sido evitada.
Isso, ao que parece, esteve longe de acontecer, já que em todos
os relatórios, depois de dois longos anos, nem sequer mencionam
o estado da pista, causador de polêmica na época, ou as
condições especificas de vôo da aeronave, responsabilidade da TAM.
Mais algum tempo e a tragédia estará devidamente esquecida,
substituída no noticiário por outras que virão e passarão.
E seremos chamados de desmemoriados.
Com razão, é claro.
Manifestação em São Paulo pelas vítimas.
As fotos e imagens são do site G1.
Se houve ou não descaso, incompetência, isso também passará.
Impune.
Mas, cruelmente, a dor dessas famílias não passará.
E isso está muito longe de ser apenas uma estatística.
Sou artista plástico.
Eventualmente algumas pessoas, racionalmente demais,
me sugerem escrever apenas amenidades relacionadas
ao meu trabalho, acham que o que acontece no mundo...
bom...'lamento, mas não é comigo.'
Essa é mais uma das frases de minha coleção de
afirmações irritantes, talvez a pior.
Leio no livro de Stieg Larsson, A Rainha do Castelode Ar,
o último da genial trilogia, que a democracia
sueca está baseada e sustentada por uma única lei,
yttrandefrihetsgrundlagen, cuja sigla é YGL, a lei
fundamental sobre liberdade de expressão. A YGL estabelece
o direito imprescritível de dizer, ter como opinião, pensar
e acreditar em qualquer coisa à todo cidadão.
Não estamos na Suécia, dirão.
Infelizmente, respondo.
Marco Angeli, novembro de 2009