domingo, 16 de maio de 2010

B'NAI MITZVÁ by Marco Angel

Acabo de terminar a pintura que representa
a cerimônia B'nai Mitzvá, do menino Abram Grossmann.
A cerimônia insere o jovem judeu como membro maduro
da comunidade judaica -Bar Mitzva, o filho do mandamento.
O menino é chamado pela primeira vez para a leitura do Torah,
 o Pentateuco para os cristãos, quando completa
13 anos e um dia, e passa a tornar-se responsável pelos
seus atos. Na pintura, Abram com seu pai, Fábio Grossmann,
com seu cachorro Gordon.

 Fábio e Abram Grossmann, pintura em carvão e acrílico
sobre canvas, 130 x 100 cm 

Marco Angeli, maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

CARTA PRA MINHA MÃE by João Barboza

Eu pensava, hoje, em escrever sobre minha mãe.
Ou para ela.
Mas encontrei o texto de João Barboza, e de repente
entendi que esse texto expressava, com muito mais eloquência
do que eu conseguiria, o que se passava dentro de mim.
Assim, aí vai, muito bonito e assombrosamente 
parecida com as histórias de muitos de nós:


 
Carta prá minha Mãe
quarta, 7 de abril de 2010 às 12:42

"Mãe, faz tempo , que eu só converso com você em pensamento,
 afinal já faz vinte anos que o tempo nos separou.
 E eu lutei muito para me separar daquela imagem tua
 no hospital A.C.Camargo em que sua partida era iminente.
 Você tava pálida e ainda conseguiu sorrir.
Eu chorei, por dentro e saí, porque eu sabia, que era o
seu último sorriso prá mim.
 E posso te dizer, como o apresentador, passou um
 filme na minha cabeça...
E nele você, representava todos os papéis, e principalmente de
heroína, mas não essas heroínas de mentira,
 que a gente acredita, mas uma heroína do lado dos
 perdedores, dos desvalidos.
 Eu me lembro de episódios seus, capítulos portanto de um
 dramalhão baiano, que você foi prejudicada e nunca perdeu
a altivez, a categoria, retribuiu com sua história e seu lema maior
 " Fazer o bem, sem olhar a quem ".
 E todos os seus ensinamentos eram em rima, como um cordelista,
 e isso nos divertia.
 Quando não queria que a gente saísse à noite, soltava um
 " Boa romaria faz, quem na sua casa fica em paz. "
 Quando era pra gente pensar nos nossos atos:
 " Cabeça de barco, não tem tutano."
E por aí, nos educava em sua pedagogia do oprimido,
mesmo sem saber do Paulo.
No ritual do enterro fiquei equidistante, procurando me isolar
daquela pantomima tétrica.
 O que era aquele corpo envolvido em flores?
 Você nem gostava de flôres fora do jardim... Admirava-as
 no pé de flor. Fora, achava burragem...
Gostava de pássaros, bichos,flores, mas cada um no seu cada qual.
 E se relacionava com todos os seres de forma admirável.
Lembra, que vc me contava da vez que teve uma gincana,
 em Marilia, e vc louca, quis ganhar uma saca de café e topou
 carregá-la nas costas... Sobre patins.
 Quase morre ou quebra as duas pernas.Mas ria do tombo.
 E enalteço a coragem,
que eu vc sabe que sou frouxo prá essas coisas.
Vc sabe,Mãe, que vc quase me deixa um trauma.
Quando eu escrevia estórias nos cadernos e vc na sua
 franqueza,dizia: - Largue dessa frescura e arruma um serviço.
E eu insistia em querer mostrar as coisas que eu escrevia,
falando das coisas do meus avós.
Vc dizia que era burragem, eguagem,jumentagem.E ria.
 Na verdade, vc não tava me proibindo, tava me alertando
que a poesia não dá camisa e nós precisávamos de mais gente
 trabalhando prá poder comer...Eu entendi.
Passado, muitos anos, eu agora pai, parece que eu tinha uma calota
protetora dessa burragem, e agora me valho dela
 para resgatar aquelas estórias, que contraditoriamente,
 vc fazia questão de me contar, nos fins de tarde.
É claro, que não as conto,com todo seu brilhantismo,
mas as estórias são tão boas, que o povo lê e tá gostando.
 E eu,enxerido, sigo, me apropriando desse patrimônio
que me deixaste,sua alegria.
.......................................................................
Eu convivo com algumas adesões, que o tempo me permitiu,
aos cincoenta anos, tenho uma pressão arterial, que não mais minha,
 ja que a regulo quimicamente, prá fugir de um enfarte.
Tenho uma barriga indecente, pros padrões hedonistas
 e de saúde,e continuo preguiçoso prá fazer esportes.
Cada vez que escrevo te ressuscito,
 para poder fazer coautora dessas burragens que cometo.
Eu precisava te dizer isso. Sua bença."

João Barboza
joaobarboz@gmail.com,
joaobarboz@hotmail.com

domingo, 2 de maio de 2010

DIVERSOS AFINS by Fabricio Brandão e Leila Andrade

É um prazer grande ver meus trabalhos no Diversos Afins,
a revista eletrônica do Fabricio e da Leila, e principalmente
por estar ao lado de poetas e escritores
tão intrigantes, interessantes...

 Um dos contos, de Carla Luma, é bem bacana,
está abaixo:
 

A ÁGUA SUJA SUJA TUDO
Carla Luma
Vivessem vocês como vivo, de rua em rua, porta em porta,
beco em beco, aqui fazendo unha de madame,
ali vendendo um batom, acolá um boquete,
teriam ódio de chuva.
Eu tenho. É atraso de vida. Queda certa e imediata no faturamento.
Ou vocês pensam que comprei apê e
new beatle com literatura? A porra agora se agravou.
Culpa, dizem, do tal de aquecimento global.
A chuva é diária o dia inteiro e eu tenho new beatle,
não tenho barco. O celular só toca pra desmarcar.
Acho até que não dá mais pra morar aqui em Sampa.
Voltar pra Jacarezinho nem pensar. De lá só o meu travesseirinho,
que mamãe recheou com penas de ganso
retiradas de um velho cobertor.
Taí duas palavras que me causam arrepio: ganso e cobertor.
Chuva? Chuva não. Odeio. Aliás, não entendo porque,
com tanto progresso, tanto desenvolvimento,
ainda não cuidaram de cobrir as ruas das cidades.
Cobrir e climatizar, obviamente. Imaginem transformar
São Paulo em um gigantesco shopping center?
Ficaria chiquíssimo.
Pensei em me mudar pra Salvador, mas me disseram
que o que eu faço por grana a concorrência faz lá por prazer.
Odeio chuva. Talvez vá para o Rio.
Apesar que lá também chove,
penso que será mais fácil conquistar os votos de que preciso
pra entrar na Academia Brasileira de Letras.
Posso descolar um apê no Leblon próximo ao de
João Ubaldo Ribeiro, que é baiano de Itaparica
e com certeza odeia chuva tanto quanto eu.

(Carla Luma nasceu em Jacarezinho, Paraná.
Costuma se apresentar como manicure e vendedora de cosméticos.
É autora do livro de memória precoce 
"As mãos me falam, os falos me calam", totalmente escrito
em alfabeto ideográfico, que será lançado na China, 
com prefácio de Mao Tsé-Tung, antes do dia do Juízo Final. 
Espera ansiosa que morra algum imortal,
pois pretende candidatar-se a uma cadeira na 
Academia Brasileira de Letras para aproximar-se
dos seus ídolos: Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro)
................................................................................

O comentário sobre meu trabalho, de Fabrício Brandão:

'Uma sensação urbana paira nalgumas das telas
do artista plástico Marco Angeli.
Sua São Paulo, por exemplo, é percorrida em diferentes
recortes históricos, algo a demarcar muito mais do que
reproduções de uma época determinada.
A virtude desse olhar é a possibilidade
de extrair dos lugares e de suas respectivas paisagens
um sentimento impregnado dos signos do tempo
e seus matizes.
Outro aspecto relevante de sua obra está na
representação do humano, condição esta que cria,
no retratar de gestos e formas,
uma leitura particular daquilo a que denominamos
por realidade.
Com uma trajetória profissional vasta,
a qual abarca incursões pelo desenho, ilustrações,
pinturas e trabalhos publicitários, Marco Angeli elegeu o
figurativismo como via norteadora de sua arte.
Tal predileção nos devolve, sob a forma de imagens,
contornos possíveis para os homens e seus lugares,
visões mundanas que também sabem
recorrer aos recursos valiosos da memória afetiva.'